Crítica | Doutor Sono (2019)

04/01/2020

Fazer sequências é sempre algo arriscado. Muitos filmes incríveis possuem sequências péssimas, que nem uma neurose coletiva as justifica. Quando falamos de filmes de terror, a história se complica mais ainda, pois a lista de sequências ruins é astronômica. Quando falamos de um clássico, muitas vezes suas sequências são desconhecidas por grande parte do público, já que não possuem metade do nível de qualidade do seu predecessor. Quando falamos de um filme de ninguém mais, ninguém menos que Stanley Kubrick; um dos maiores diretores que já existiu e, sinceramente, o meu favorito; nenhuma sequência é necessária, de maneira alguma. Um filme que é uma sequência de um clássico de terror do Kubrick deveria ser um erro, ou teria tudo para ser um. Com sorte, Doutor Sono está bem longe disso.

O grande erro da maior parte das sequências, remakes e reboots que se vê por aí é o medo de serem originais. Ninguém vai ver uma dessas produções pensando: como eles vão emular o original? Como eles vão refazer aquela cena tão icônica? O que o espectador espera é uma nova oportunidade de conhecer mais sobre aquele universo e seus personagens, não refazendo a mesma viagem que já foi feita (e, muito provavelmente, uma viagem pior), mas descobrir o porquê da existência daquela obra (além de fazer dinheiro para os cofres do estúdio) e por que razão aquele mundo nos chama mais uma vez. Denis Villenueve entendeu perfeitamente quando fez o excelente Blade Runner 2049. Luca Guadagnino, quando fez sua própria versão do clássico giallo Suspiria, fez um filme que pegou do original apenas o necessário para contar sua própria história. E assim o fez Mike Flanagan ao oferecer outra excursão até o hotel mais assombrado do cinema. 

A trama do filme é bem simples: o pequeno Danny Torrance cresceu e, após lidar com os mesmos problemas de alcoolismo do pai, consegue alguma estabilidade na vida. No hospital da pequena cidade em que vive, chamam-no de "Doutor Sono", por sempre consolar os que estão prestes a morrer (utilizando um pouco de sua iluminação para isso.) Ele mantem contato com uma garota Abra, que possui uma iluminação muito forte, e, por isso, está sendo caçada por um bando, O Verdadeiro Nó, de criaturas que sobrevive ao sugar a iluminação. 

Flanagan sabe muito bem como conduzir a história. Para aqueles que não estão acostumados com quase duas horas e meia de filme, não será uma dificuldade aqui. Por mais que a trama só venha, de fato, começar um tempo depois; o diretor aproveita para instalar todo alicerce de seus personagens. O que aconteceu com o Danny depois que saiu do Overlook? Como ele lidou com seus traumas na infância? Como ele lida com seus problemas de agora? - tudo isso é respondido com clareza, sem que, em nenhum momento, a trama se perca. Ewan McGregor atua muito bem, transmitindo com seu olhar cansado a solidão e os vícios que o atormentam, mas sem nunca dispensar um rosto acolhedor para confortar os seus "pacientes" que estão prestes a deixar esse mundo. Interessante lembrar que Kubrick, nas gravações do próprio O Iluminado, disse que qualquer história que mostre vida pós-morte é otimista. E essa é uma das grandes, senão a melhor, faceta de Danny que o filme nos traz. Mesmo com todos os traumas que passou, com todos os monstros que prendeu em suas caixas mentais, com todas vezes que já se arrependeu de beber e parecer com seu pai... o personagem de Ewan McGregor não parece ter medo do que vai acontecer com ele, pois, nas suas próprias palavras, nós não simplesmente deixamos de existir. O primeiro paciente do Doutor Sono foi ele mesmo. E é essa a esperança que ele passa para a jovem Abra, bastante poderosa em utilizar de seus poderes, mas que ainda não conhece todas as suas implicações. A jovem Kyliegh Curran faz um trabalho excelente, cativando o espectador com seu entusiasmo e sua inteligência (não, não é um filme de terror em que os personagens sejam burros.)

Sendo honesto, não espere um filme de terror O Iluminado 2. Na verdade, deveríamos agradecer que ele não é um, e o melhor: ele nem tenta. Seu terror funciona (embora não seja nada tão claustrofóbico como o clássico), mas o diretor enfoca muito bem no drama de seus personagem, ao ponto que acho que catalogar esse filme apenas como um filme de terror é ter dormido, não sei... o filme todo? Brincadeiras à parte, Doutor Sono é realmente um drama misturado com uma fantasia macabra sobre Danny (sim, por mais que haja a garota e a perseguição atrás dela, tudo se conecta a ele), sendo que é impossível dissociar seus problemas do terror que sofreu quando criança. 

Dos novos personagens, Rebecca Ferguson (e seus "Well, hi there") é quem realmente se destaca. Sua presença domina a tela, suas motivações são claras e plausíveis (e se intensificam no decorrer do longa) e sua ameaça traz o senso de urgência. O resto dos membros do Verdadeiro Nó cumprem sua função narrativa e seria até melhor se mais poderes deles fossem revelados (além de que, um dos membros, o Corvo, é derrotado de maneira muito mais fácil que o perigo que ele deixa em potência.) 

O design de produção faz um trabalho excelente. Impossível não se lembrar das locações dos filme do Kubrick em diversas cenas (se você não percebeu nenhuma semelhança entre o escritório do médico e do Sr. Ullman, das duas, uma: ou você dormiu em O Iluminado, ou dormiu aqui.) Até as cenas que se passam no tempo presente tem certo toque retrô, como na parte em que Andi está vendo Casablanca no cinema. Falando sobre o que era mais esperado: o Overlook está perfeito. Decadente, mas não menos enigmático ou nostálgico. E talvez seja esse o maior problema do filme: a sua nostalgia, concentrada no terceiro ato.

A vinda do Overlook é anunciada desde muito cedo no filme. Quando chega, ao som do clássico Dies Irae, ressurge imponente. Infelizmente, depois disso, o roteiro acaba se perdendo em seu próprio excesso de fanservice e referências. Obviamente, eles sempre são bem-vindos, quando feitos com moderação. A direção do Flanagan evoca o trabalho do Kubrick, mas tem a sua originalidade. Uma das minhas cenas preferidas é uma em que ele mistura os carros na estrada com uma viagem pela mente que está acontecendo. Em falar nos passeios mentais, eles são, sem dúvida, uma das partes mais convidativas do longa, explorando vários "truques", além de visualmente chamativas (um ponto para a cinematografia de Michael Fimognari).  O roteiro respeita tanto o livro do King quanto o trabalho para os cinemas, o que não é nada fácil, mas caminha com seus próprios pés. A música dos Newtons Brothers nos relembra daqueles gritos cortantes que assombravam o Overlook, até a própria edição do filme está em consonância com a do predecessor. Contudo, no confronto final, o filme libera sem reservas todos os momentos "olha aquele personagem/objeto!", que não dá nem tempo do espectador se recuperar de um momento para outro. E, nas vezes que a obra recria cenas do longa de 1980 ou trás de volta algum personagem do passado (sem ser o Dick Halloran), soa desnecessário e uma distração do que está acontecendo (com exceção de uma conversa muito importante que ocorre entre Danny e seu pai, o único trauma que não conseguiu guardar), por mais que as cenas sejam bem-feitas. Pode ser até irônico que quanto mais o longa se aproxime do original, mais ele perde forças... porém é perfeitamente compreensível quando nos formos relembrar do que disse um pouco acima.

Doutor Sono foi uma das maiores surpresas do ano para mim. Nunca dei nada pelos trailers, a existência desse filme me irritava e esperava uma grande bomba que me fosse fazer rever o clássico, pelo menos, cem vezes. O que ganhei foi um ótimo filme, com excelentes performances, uma direção e roteiro comprometidos, que deixa a desejar um pouco na sua resolução, mas não apaga a iluminação dessa obra. Fãs do livro, do filme ou dos dois deem uma chance. Só saibam o que lhes aguarda.

  • Doutor Sono (Doctor Sleep, EUA, 2019) - 152 min
  • Direção: Mike Flanagan
  • Roteiro: Mike Flanagan
  • Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Cliff Curtis, Zahn MacClarnon, Jacob Tremblay, Emily Alyn Lind