Crítica | Era Uma Vez... em Hollywood (2019)

12/01/2020

Aviso: se não viu o filme, saiba que há spoilers no texto!

Madrugada entre os dias 8 e 9 de agosto de 1969. A atriz em ascensão Sharon Tate, noiva do diretor Roman Polanski - que, um ano antes, havia feito bastante sucesso com o clássico O Bebê de Rosemary - estava a poucos dias de ter seu bebê. Seu marido estava em viagem e, naquela noite, seus amigos (Jay Sebring, Abigail Folger, William Garretson, Wojciech Frykowski e Steven Parent) faziam-na companhia. Com exceção de Garretson, todos foram assassinados brutalmente pelos seguidores de Charles Manson. O mundo inteiro se chocou com a matança - principalmente pela gravidez de Tate - e Hollywood mudou para sempre. Para muitos, os anos 60 haviam acabado ali, assim como a Era de Ouro. Aproveitando-se dessa história, Quentin Tarantino assina sua declaração de amor ao cinema em seu décimo (ou nono, para aqueles que consideram Kill Bill único) filme.

O cinema sempre esteve presente, de uma forma ou de outra, em toda a filmografia do cineasta, mas a sua metalinguagem aqui está mais forte do que nunca. Muitos reclamaram de que o filme não parecia uma obra do Tarantino ou de que a trama "não fazia sentido". De fato, este é o filme mais maduro do diretor e é necessário ter conhecimento prévio do que aconteceu para aproveitar bem melhor a trama. A violência exacerbada, uma das suas marcas registradas, encontra-se apenas nos momentos finais da obra (um assunto para discutirmos um pouco mais abaixo). A história, nas palavras do próprio cineasta, é a que mais se aproxima de Pulp Fiction, um de seus filmes mais famosos (se não "o"), com exceção da divisão explícita em capítulos (embora a separação ainda esteja lá: nas cenas em que Cliff dirige seu carro, em um curto tempo que a tela fica preta ou em um six months later...). Era Uma Vez... em Hollywood é um filme que confia sua trama em seus personagens, já que vemos todo o seu cotidiano na cidade dos sonhos. 

Rick Dalton é um ex-ator de televisão, famoso pelo seriado western Bounty Law, que, após tentar uma carreira de cinema, vê-se em pleno declínio. Fadado a interpretar vilões em séries de TV, e a servir de saco de pancada para qualquer "novato" que queria se estabelecer no ramo - uma ótima cena que mostra como a indústria trata seus artistas, o personagem tenta buscar um novo jeito de se firmar na indústria. Um alcoólatra (chegou a perder até a licença para dirigir), fumante descontrolado (quando ele não está fumando, está tossindo pelo fumo) e completamente inseguro. Gagueja quando vai falar com alguém de respeito, surta quando não consegue decorar suas falas ou chora quando percebe a situação em que se encontra (um simples livro e uma conversa com a jovem destaque Julia Butters levam a isso). Dalton desistiu de sua estabilidade para perseguir o sonho que Hollywood oferece e fracassou. DiCaprio está o mais natural possível no papel. Muitas de suas cenas são absurdamente hilárias (o modo como ele não economiza xingamentos aos hippies - um símbolo do choque de ideais da época), e o ator aproveita das fraquezas de seu personagem para dominar a tela e nos fazer simpatizar com sua tentativa de ascensão. Como não ficar feliz quando ele acerta suas falas no programa? Ou quando ele finalmente entra na casa dos Polanski, símbolo de uma elite que Rick mal conseguia arranhar? 

Cliff Booth é o (ex) dublê "faz-tudo" de Rick. Seu personagem sempre parece estar escondendo algo (afinal, ele matou sua mulher ou não?), sempre havendo algumas insinuações de seu passado que dariam excelentes histórias (a do Bruce Lee, cena envolvida numa polêmica desnecessária, já é uma ótima.) Cliff já parece ter desistido de sua carreira em Hollywood, tanto que não demonstra oposição alguma em viajar para fazer alguns westerns spaghetti, e seu cotidiano é auxiliar seu amigo em quase tudo: levá-lo para o set de gravações, cuidar de sua casa e até levantar a moral do ator quando ele está completamente inseguro ou frágil emocionalmente (o que acontece quase sempre.) Sua única outra amizade é com sua cadela Brandy, a qual responde com apenas um sinal de seu dono. Brad Pitt faz um excelente trabalho, misturando uma seriedade e um senso de humor que tornam o dublê um dos melhores personagens badass dos filmes do Tarantino, enquanto se aventura pela cidade - ouvindo músicas em seu carro.

E que dupla Pitt & DiCaprio! A química entre os atores é completamente natural, compramos realmente a ideia de que são amigos inseparáveis, e não podemos esquecer do melhor... são cinéfilos de carteirinha! O que há de mais cinéfilo do que a cena em que os personagens estão assistindo ao show do FBI? A câmera foca apenas na televisão e só ouvimos os comentários dos personagens. Algo tão simples, mas tão bem pensado (não são os melhores posicionamentos de câmera assim?) Atire a primeira pedra aquele que nunca aproveitou uma boa conversa sobre um filme... aquelas misturadas com boas risadas e comentários que parecem varrer mais de duas horas de longa com precisão. Isso também é cinema! E ver isso em tela é uma das maiores apreciações que se podem fazer à Sétima Arte. Poderia ser o tempo que fosse a conversa entre os dois personagens sobre qualquer filme, que nós nos sentiríamos integrados a ela, como se fossemos amigos dos dois.

Margot Robbie faz uma atuação especial como a icônica Sharon Tate. Percebe-se o cuidado do roteiro em não machucar a imagem histórica da personagem, idealizando-a através da "não idealização". Explicando melhor esse termo aparentemente contraditório; Sharon ronca, vai ao cinema com seus pés sujos e não consegue esconder sua felicidade com a reação do público ao filme The Wrecking Crew. Mas, ao fazer com que ela seja "gente como a gente", o texto consegue deixá-la em um campo maior de idealização, em que nós entramos no sonho em que ela está vivendo e conseguimos saborear cada vez que a personagem é gentil com alguém. Não foram incomuns críticas aos poucos diálogos que a atriz possui, mas, honestamente, qual a grande situação? Sua atuação não precisa de muitas falas para nos tocar, apenas seu sorriso, seu entusiasmo e otimismo com todo o mundo que ela vive dão conta do recado. Esse mesmo otimismo, misturado com ingenuidade, que desapareceu após os brutais assassinatos de 69. A inocência havia perdido de vez seu espaço, e Tarantino faz questão de resgatá-la em Sharon Tate, uma personagem que representa e faz muito. com pouco.

Por último, mas não menos importante, Hollywood! É claro que ela é uma das personagens do filme. Tão viva quanto qualquer personagem. As luzes neon que iluminam os estabelecimentos, os cinemas de rua, os estúdios, os sets de filmagem dinâmicos, as casas luxuosas e suas festas movimentadas... a belíssima cinematografia de Robert Richardson nos chama, através de suas luzes e cores fortes (a sequência que a cidade "acorda" é um deleite), para um passeio de uma cidade que sempre aguarda uma história a ser contada. Essa é a principal trama de Era Uma Vez.. em Hollywood: pessoas que querem deixar sua história, sua marca, o seu legado em uma cidade que já foi palco de tantas e nunca se cansa de ser.

E nessa multiplicidade de histórias, a direção de Tarantino explora uma vasta diversidade de gêneros. Comédia por um tempo, drama por outro, uma cena que mistura verdadeira tensão e suspense, algumas referências a filmes de guerra, de espionagem, ação; e, o gênero mais reverenciado de todos, o western. Tarantino sempre foi fã de um filme de faroeste e não dispensa uma única chance de retornar ao gênero. É tudo feito de uma maneira tão orgânica que, em uma determinada cena de gravação de um seriado western, a câmera do seriado e a do filme vão pouco a pouco se fundindo até o momento que estamos vendo o piloto de Lancer e, quando a filmagem é interrompida, "acordamos" e nos lembramos de tudo o que está acontecendo. A definição pura da magia do cinema. Mesmo que pareça que as histórias só se liguem no final, a câmera já havia ligado tudo (a transição da casa de Rick para Sharon e Roman indo à Mansão Playboy, apenas de exemplo) e as múltiplas narrativas viram uma. 

A imersão nos anos 60 é completa. Vemos os trailers da época, somos agraciados com as músicas do período, a programação televisa e até comerciais e anúncios (Batman!) no rádio estão presentes e nos empurram para o ano de 1969. Uma das frases mais conhecidas do diretor é: "Quando as pessoas me perguntam se eu fui à faculdade de cinema, eu as digo que: não, eu fui ao cinema". Só a junção de todas as idas ao cinema; não só do Tarantino, mas de toda a equipe; podem descrever todo o esmero da produção em homenagear à Sétima Arte, desde um simples pôster até as "recriações" de filmes. Situamos-nos na época, no local e nos afeiçoamos aos personagens. O que mais falta? Um final que eleva ainda mais a experiência.

Não é novidade que Tarantino não goste de se manter 100% fiel à história. O fim de Bastardos Inglórios é uma das coisas mais surtadas (de modo bom) dos filmes do diretor e não é por acaso. Com uma história tão trágica quanto os assassinatos de 69, ficaria difícil adaptá-la fielmente. E que bom que não foi. O filme altera de maneira inesperada, mas planejada, todos os acontecimentos daquela noite fatídica. O "clássico" Tarantino violento aparece aqui em uma cena simplesmente fenomenal, absurdamente hilária e satisfatória. Seguidores de um culto fanático levam "o que merecem" nessa sequência que é um "isso não está acontecendo" atrás de outro. O palco já foi preparado por duas horas, e o pagamento não poderia ser melhor (P.S: Brandy é fantástica, nada mais a dizer.)

E justamente na cena final, o diretor, ao som da linda Miss Lily Langtry, relembra: é tudo apenas um conto, como o próprio título - referência direta aos filmes de Sergio Leone - indica. Na vida real, não houve um Rick Dalton ou um Cliff Booth, como queríamos. Sabemos o que realmente aconteceu: inocentes foram mortos e o sonho, interrompido. Acompanhado do título do filme, vem um término belo, melancólico e emotivo; características incomuns para aqueles que se prendem a um Tarantino sanguinolento. Um último adeus a uma fantasia do que Hollywood - sempre - poderia ter sido. 

Era Uma Vez... em Hollywood concorre cada vez mais para ser meu filme favorito do diretor (posto ocupado atualmente por Kill Bill). Uma declaração fervorosa de fascínio ao cinema e à Época de Ouro. Não é um filme usual do Tarantino, e é sempre bom ver diretores enveredarem por novos caminhos - principalmente quando a viagem é tão boa como essa. 

  • Era Uma Vez... em Hollywood (Once Upon A Time... in Hollywood, EUA, 2019) - 161 min
  • Direção: Quentin Tarantino
  • Roteiro: Quentin Tarantino
  • Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Julia Butters, Austin Butler, Dakota Fanning, Luke Perry, Damian Lewis, Al Pacino
Para aqueles que quiserem saber quais filmes o diretor recomenda ver antes de Era Uma Vez.. em Hollywood, cliquem aqui.