Crítica | O Retorno de Mary Poppins (2018)

A babá mágica finalmente está de volta! A icônica Mary Poppins, que não era vista nos cinemas desde 1964, fazendo com que os fãs do original tenham um misto de ansiedade e medo. Afinal, estamos falando do maior (e melhor) live-action já feito pela Disney, um clássico musical que encanta independente da idade. A responsabilidade era imensa. Afinal, era preciso trazer elementos novos ao mesmo tempo que mantinha o espírito e, principalmente, a magia do primeiro filme. E o estúdio acertou em cheio, oferecendo um filme mágico (em um dos melhores sentidos que a Disney sabe fazer) que encanta a quem está disposto a deixar a magia da infância retornar.

Seems the promise of tomorrow never comes

But since you dream the night away

Tomorrow's here

It's called today

So count your blessings

You're a lucky guy

For you're underneath the lovely London sky

O filme se situa na Grande Depressão, apresentando-nos uma Londres mais escura e nublada do que a vista no filme anterior. Em contraste, Jack, o acendedor de lampiões, não ilumina apenas a cidade acendendo os lampiões, mas, também, serve para acender em todos o espírito jovial que ele tanto carrega. Um personagem que sempre está pronto para ajudar, nem que para isso tenha que colocar as crianças em uma bicicleta pouco convencional ou reunir todos os lumes de Londres para guiar alguém para casa ou para subir no Big Ben. E Lin-Manuel Miranda brilha em seu papel com seu imenso carisma.

Retomando o contexto da Grande Depressão, o filme acerta em cheio mostrando o impacto dela na vida dos personagens principais. As crianças do primeiro filme, Jane e Michael, cresceram. Enquanto ela trabalha em um sindicato, ele é pai viúvo de três crianças (Annabel, John e Georgie) que trabalha exaustivamente no banco que o pai trabalhou para poder pagar as suas dívidas. Annabel e John precisaram amadurecer bastante para poderem ajudar a família, principalmente a governanta atrapalhada Ellen (Julie Walters em um papel pequeno, porém muito engraçado). Ao contrário do original, onde apenas o pai das crianças não acreditava na babá, aqui a situação é ainda pior. Por terem amadurecido mais cedo, Annabel e John, no começo, chegam a duvidar da babá (mesmo vendo a estrondosa chegada dela). Sobre os adultos, Jane e Michael acham que todas as aventuras vividas na infância eram apenas imaginação. A situação é tão preocupante que a babá não é nem chamada, ela se oferece para ajudar a família Banks. E, claro, chegando do jeito que mais combina com ela: vindo em uma pipa (a mesma pipa das crianças no filme de 64).

A estrutura narrativa do filme continua quase a mesma. Em diversas cenas e músicas, é possível criar um paralelo com o primeiro filme. Mas o roteiro de David Magee não se prende a nostalgia que essas cenas causam, mas ele, junto com o diretor Rob Marshall, reimaginam o que foi feito antes, misturando o que já foi feito antes com as suas próprias ideias. O Retorno de Mary Poppins traz aquilo que satisfaz os fãs do original e abre portas para novas gerações conhecerem a babá mágica. 

A trilha sonora, composta por Marc Shaiman , escrita tanto por ele quanto por Scott Wittman (e um dos compositores do filme original, Richard Sherman, serviu como consultor) é esplêndida. As canções nos fazem lembrar de todo o espírito e alegria que os irmãos Sherman passaram nas músicas no original (os maiores exemplos são a linda The Place Where Lost Things Go, as divertidas Can You Imagine That?, A Cover Is Not The Book e Trip a Little Light Fantastic, e a esperançosa e nostálgica Nowhere to Go But Up). Muitas vezes o compositor traz evoques das trilhas clássicas (como não notar a icônica A Spoonful of Sugar quando Mary Poppins chega na casa dos Banks? Ou Let`s Go Fly A Kite na conversa com a Mulher dos Balões?) que funcionam como um sopro de magia, trazendo lembranças de quando Julie Andrews nos ensinava a falar Supercalifragilisticexpialidocious.


So, perhaps we've learned when day is done

Some stuff and nonsense could be fun

Can you imagine that?

O filme também se destaca fortemente em seus aspectos técnicos. Seus louváveis figurinos remetem fortemente à Londres do século XX, mas também se destacam na sequência no Royal Doulton Music Hall. Em falar nele, que bom que a Disney trouxe a animação em 2D de volta!  A sequência específica é um dos pontos altos do filme (assim como a meia hora inicial e final) com direito a uma perseguição pela tigela da mãe das crianças. As coreografias não chamam muita atenção, exceto em Trip a Little Light Fantastic, onde os lumes realizam um show utilizando escadas e bicicletas.Visualmente, também temos um espetáculo que os outros filmes live-action da Disney trouxeram. Destaco o final com Mary voando enquanto as folhas das cerejeiras trazem a mensagem: a porta foi aberta, Mary Poppins veio e já vai, e, sendo praticamente perfeita em todos os sentidos, cumpriu sua tarefa de trazer alegria para todos (personagens e espectadores).

E, o maior trunfo do filme, o seu elenco. Quando Julie Andrews afirmou em uma entrevista antes do filme estrear que Emily Blunt, a atriz escolhida para o papel-título, recebeu sua aprovação, já esperávamos uma atuação incrível. Mas Blunt consegue surpreender ainda mais. Sua Mary Poppins é diferente da de Andrews, porém ainda continua no mesmo nível de excelência. Rígida quando necessária, irônica nos melhores momentos e, através de um olhar e um sorriso honesto, mostra o seu apego às crianças além de se mostrar compassível aos seus problemas. Outro que se destaca bastante é Ben Whisaw como Michael. Somos capazes de nos afeiçoar a todos os problemas com que ele passa vendo no ator o retrato de um pai que luta e faz tudo pelos seus filhos enquanto esconde a tortuosa saudade que ele sente de sua esposa (a bela sequência de A Conversation e os momentos antes da reprise de The Place Where the Lost Things Go mostram a dor do personagem). O trio infantil funciona perfeitamente e atores famosos que tem uma participação pequena na trama, como a Meryl Streep Angela Lansbury, possuem sequências musicais muito boas. Colin Firth, que é o vilão da história, apenas cumpre o seu papel na narrativa. Dois personagens que surpreenderam foram o Almirante Boom e o Sr. Binnacle que estão muito engraçados em sua rivalidade contra o Big Ben. E como esquecer do inigualável Dick Van Dyke? Aos 93 anos, o ator ainda consegue extrair várias gargalhadas (a referência da perna de pau que se chama Smith foi incrível).

O Retorno de Mary Poppins é o encontro da nostalgia da Disney com um chamado para novas aventuras. A mensagem ainda continua a mesma (porque os problemas continuam os mesmos): nos momentos mais tristes, não sejamos frios e rancorosos como os adultos do filme. Sejamos, não importando a idade, como uma criança: alimentados pela imaginação, mesmo um pouco derrubados, sejamos capazes de sorrir. Com uma sequência que está em estágios iniciais, só podemos esperar que a babá continue voltando trazendo essa mensagem tão rica e importante acompanhada das mais divertidas músicas que só alguém como Mary Poppins poderia trazer. Afinal, não há lugar para ir a não ser para cima!

For hold on tight to those you love

And maybe soon from up above

You'll be blessed so keep on looking high

While you're underneath the lovely London sky

  • O Retorno de Mary Poppins (Mary Poppins Returns, EUA, 2018) - 131 min
  • Direção: Rob Marshall
  • Roteiro: David Magee
  • Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Wishaw, Emily Mortimer, Julie Walters, Pixie Davis, Colin Firth, Meryl Streep, Angela Lansbury, Dick Van Dyke, David Warner, Jeremy Swift, Jim Norton