Crítica | Os Intocáveis (1987)

Do ano de 1920 até o de 1933, perdurou nos Estados Unidos a Lei Seca: o comércio de bebidas alcoólicas era estritamente proibido. Claro que muitos cidadãos, ansiosos para consumir qualquer bebida com álcool, foram contra essa lei e tentaram de todo jeito saciar o seu desejo. E foi nesse contexto que os gângsteres conseguiram bastante dinheiro, pois eram os principais contrabandistas do país. E foi em Chicago que se teve o registro de um dos gângsteres mais famosos: Al Capone, dono de umas das maiores redes de contrabando de bebidas. Sua influência na sociedade era imensa, ao ponto de obter muitos policias de Chicago em sua folha de pagamento. Porém um deles não aceitou o suborno e se empenhou em levar Capone para a cadeia. O nome dele era Eliot Ness.

Trabalhando de forma incansável, Ness procurou o registro de diversos policias e criou uma equipe para agir no caso. Al Capone tentou subornar e intimidar vários de seus membros, incluindo o próprio Ness, mas nenhum deles cedeu à pressão. Por conta disso, a mídia apelidou a equipe de "Os Intocáveis". Um amigo próximo do policial chegou a ser morto por causa dos conflitos. Mas ele não desistiu e, em 1931, Al Capone foi levado a tribunal e condenado a 11 anos de prisão. Seu sucesso na missão fez com que Ness, antes de morrer em 1957, ajudar na escrita de sua autobiografia com o mesmo nome de sua equipe que conta como foi realizada toda a operação para derrotar o gângster. Esse livro inspirou uma série de televisão, que foi de 1959 a 1963, e também ao filme de Brian De Palma lançado em 1987, assunto desta crítica.

De Palma, que veio a dirigir outro filme de máfia muito aclamado anos mais tarde (Scarface), realiza aqui um trabalho, durante grande parte do filme, excepcional. As cenas de ação são muito bem dirigidas com o predomínio da tensão nos momentos certos, como na cena do bebê na estação de trem. O diretor consegue exprimir sua assinatura em grande parte das cenas, sabendo controlar muito bem as emoções do espectador. O cineasta apenas falha no desenvolvimento do núcleo familiar de Ness que nunca é tão bem explorado quanto deveria e sua ausência em grande parte do longa não é nem percebida pelo espectador. A trama do filme demora um tempo até engatar de vez, mas depois que isso acontece, De Palma consegue guiar o filme de forma que o espectador não o perca de vista.

A produção do filme é irretocável. A ambientação de uma Chicago escura, com medo da violência dos mafiosos e sem poder contar com a polícia corrompida é extremamente convincente. Os personagens, com exceção de Ness que só começa a perder as esperanças após o fracasso retumbante de sua primeira missão, são introduzidos como se não houvesse mais esperança. A criancinha que é vítima da violência e sua mãe em prantos são os perfeitos retratos da criminalidade que tomou conta do lugar. A mãe é a representação de todos os cidadãos de Chicago que não aguentam mais a violência e ainda veem em Eliot a chance de limpar a cidade.

E, sendo assim, De Palma não poderia amenizar na violência. Duas mortes importantes acontecem em curto espaço de tempo e elas não amenizam na violência utilizada. O sangue não é utilizado de forma gratuita para o espectador, ele faz justamente o contrário: corrobora a criminalidade de Capone, do decaimento dos oficiais e das graves consequências que ocorrem com aqueles que tentam mudar a situação. As cenas são densamente carregadas pela incrível trilha de Ennio Morricone que, através do comovente "Death Theme", consegue ampliar todas as cargas emocionais de todas as cenas. Sejam elas de ação ou de heroísmo, que são carregadas pelo energético tema principal do filme. Os créditos de abertura já atraem a atenção, justamente, por causa do tema do compositor italiano. O figurino é outro importante elemento técnico que merece destaque, por causa de fidelidade (as roupas que De Niro utilizou foram cópias idênticas às roupas de Al Capone).

Em relação ao elenco, Kevin Costner e Sean Connery são os atores que se saem melhor em tela. Costner, que foi auxiliado por Albert H. Wolff (o único membro vivo da equipe policial original), consegue retratar todas as dificuldades de Eliot Ness. Sua determinação em derrotar o mafioso, porém aliada ao seu medo de arriscar a vida de seus amigos e aumentar o banho de sangue. Ness é um personagem relacionável cujos seus erros e fraquezas não conseguem superar o heroísmo que ele expressa em cena. Já Connery, e seu irreconhecível sotaque, são o ponto alto. O personagem de Malone funciona como um tutor para Eliot, transmitindo sua experiência não apenas como policial, mas também como alguém que teve que assistir a toda corrupção da polícia e de Chicago sem poder fazer nada.

Infelizmente, De Niro não consegue se sobressair como Capone. Mesmo que o ator tenha feito uma alta pesquisa sobre o mafioso (onde ele leu sobre ele, assistiu cenas históricas) e se preocupou em ficar semelhante fisicamente a ele, seu tempo de tela é pequeno e o ator não se destaca neles. Andy Garcia e Charles Martin Smith fazem o esperado para o papel de seus personagens, tendo uma ou outra cena de maior destaque.

Os Intocáveis é um filme prazeroso de assistir. Trata-se de um incrível trabalho que, na junção da direção, atuação, figurino e música, consegue oferecer uma experiência que cativa ao mesmo tempo em que sensibiliza em outras cenas. Nomeado para quatro prêmios da Academia, Connery ganhou o de melhor ator coadjuvante. Os Intocáveis é um filme para se rever quando tiver a chance e de recomendar para todos os amigos que estão atrás de algum filme de qualidade.

 Word is they're going to repeal Prohibition. What'll you do then? 

I think I'll have a drink. 

  • Os Intocáveis (The Untouchables, EUA, 1987) - 119 min
  • Direção: Brian De Palma
  • Roteiro: David Mamet (baseado no livro de Oscar Fraley e Eliot Ness e no seriado The Untouchables)
  • Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson, Vito D'Ambrosio, Steven Goldstein, Robert Swan